"É óbvio não ser possível vadear o rio Hvita, e é igualmente improvável atravessá-lo a cavalo. No entanto, há uma história do século 17, que dizem ser verdadeira, sobre o filho de um fazendeiro de Brattholt, que guardava ovelhas em pastagens de verão ao longo do Hvita.
Do outro lado do rio, em Hamarsholt, uma menina vigiava ovelhas. Eles mantiveram um olhar afiado sobre o outro, com o Hvita entre eles. Finalmente, no entanto, a menina pediu ao menino para atravessar o rio e encontrá-la. Ele entrou na corrente na parte mais rasa e conseguiu atravessar o rio! Pouco se sabe sobre como a menina respondeu, exceto que eles se casaram e tiveram muitos respeitados descendentes."
(Lenda descrita numa placa à beira do rio Hvita, na Islândia - com o título "ástarsaga", que, traduzido do islandês, significa "história de amor")
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“O que você viu em mim?”, perguntou, em inglês, a ela. A ingenuidade da questão, somada ao provável inoportunismo da situação, em meio a uma multidão e toda a música alta ao redor, parecia fadada ao fracasso. Esperava que ela respondesse da maneira mais evasiva possível, mas ela sorriu e disse, enquanto o abraçava, de forma supreendentemente firme: “you have friendly eyes”. Orgulhoso (consigo mesmo, com aquele momento, com aquele diálogo, e com praticamente tudo o que estava vivendo nos dois últimos dias), abraçou-a demoradamente, fechou seus olhos amigáveis e por um instante não ouvia mais a música e a multidão, apenas a respiração próxima dela.
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Acordaram cedo e saíram sorrateiramente, sorrindo como crianças quando aprontam, evitando que o staff do hostel notasse que ela havia dormindo lá. Partiram em busca de um lugar para tomar café da manhã e vivenciar aquele lindo dia como se ele não tivesse fim.
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No primeiro email após a derradeira despedida, ela descreveu para ele o momento em que retornou para o carro, e como ficou imóvel por vários minutos, recompondo-se das emoções efervescentes e que, ao resolver ligar o rádio, estava tocando “is this love”, do Bob Marley, questionando se aquilo trazia algum significado para o que ela estava sentindo. Dizia no email: "love appears in so many shapes, and within such a huge variation of time and space... I'm not sure exactly what this thing we have/had is/was. no matter what it was, it was special to me, and I'll always remember you for that."
Já ele, voltou todo o caminho do trem ouvindo seu próprio álbum, ainda em processo de composição (e que tomaria um rumo completamente inesperado após aquela experiência). “Eu sei que em breve você vai embora” dizia o refrão da música que havia composto há um ano atrás. Na ocasião, feita para ninguém ou nenhuma situação em especial, mas que ali adquiria um novo sentido. Cada verso e palavra com um peso muito maior...como se ele próprio premunisse sua vivência recente, um ano antes. “um amor verdadeiro selado pela sua urgência”. Quão irônico.
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"I'm glad we met again", disse ele, sorrindo e colocando a mão na cintura dela. Ela devolveu o sorriso, respondendo "me too". Estava ainda incrédulo e extasiado de tê-la reencontrado no meio daquela multidão. A empolgação dela ao vir cumprimentá-lo indicava que o sentimento era recíproco.
Resolveu arriscar um primeiro beijo, o qual ela, ainda tímida, não deixou que durasse muito. Ficou meio sem jeito, sem saber o que fazer, mas antes que pudesse se questionar se havia sido precipitado demais, ela puxou seus braços e colocou em volta da sua cintura, deixando que a abraçasse por trás. Repousou o queixo nos ombros dela, orgulhoso daquele momento, que sentia que seria especial.
"I'm glad we met again", disse ele, sorrindo e colocando a mão na cintura dela. Ela devolveu o sorriso, respondendo "me too". Estava ainda incrédulo e extasiado de tê-la reencontrado no meio daquela multidão. A empolgação dela ao vir cumprimentá-lo indicava que o sentimento era recíproco.
Resolveu arriscar um primeiro beijo, o qual ela, ainda tímida, não deixou que durasse muito. Ficou meio sem jeito, sem saber o que fazer, mas antes que pudesse se questionar se havia sido precipitado demais, ela puxou seus braços e colocou em volta da sua cintura, deixando que a abraçasse por trás. Repousou o queixo nos ombros dela, orgulhoso daquele momento, que sentia que seria especial.
“What comes after this momentarily bliss. Consequence of what you do to me. Help me to name it. Help me to name it” clamava a vocalista que cantava de forma tão apaixonante, naquele que era o show que mais queria assisitr daquele festival e, que, subitamente, numa surreal e inesperada soma de forças favoráveis, havia se transformado no momento mais marcente de toda a sua viagem.
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“Não quero dormir. Temo que, quando acordar, você não estará mais aqui.”
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Tomaram um último suco de laranja juntos e ela o acompanhou até a rodoviária. Tiraram fotos um do outro, abraçaram-se demoradamente e trocaram sorrisos. Estavam orgulhosos do que viveram. Ele, especialmente, por estar apenas no começo de sua viagem. Ainda visitaria mais 3 cidades depois daquela e já achava improvável ter vivenciado tão intensamente a primeira. Eufórico, ficou relendo o cartão que ela lhe deu durante todo o trajeto do ônibus, sem sequer imaginar que aquela experiência estava apenas começando.
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Notou como ela acordou de súbito, arregalando os olhos assustada e procurando-o ao seu lado. Ele anunciou esse temor anteriormente, mas foi ela quem o sentiu. Acordou temendo que ele não estaria mais ali. Acariciou seu rosto, aliviada de que sim, ele ainda estava ali. Encostou sua testa na dele e voltou a dormir. Ele, ao contrário, não dormiria mais. Essas duas últimas horas eram preciosas demais para que se rendesse à inconsciência.
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“what is this... that we have?” perguntou a ela, enquanto sentavam na beira de um lago naquela linda cidade, no meio do nada, tão pequena e tão bucólica. “I dont’ know...do you?”. Deu de ombros e prometeu que até o dia seguinte, quando se despedissem, ele diria. Não o fez, não por ter-se esquecido, mas porque o sabia desde sempre. E sabia que, no fundo, ela também sabia. Uma pergunta retórica. Na ocasião da despedida, preferiu emudecer as palavras e deixar que a resposta transparecesse no que restou da ausência do outro.
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Naquele segundo, e que seria o último, encontro, não quis tirar fotos. Vivenciar já era o bastante. Sabia como ninguém que a memória era falha, mas preferiu pagar o preço. Apenas com olhos, coração e sentimento. Sem mediações.
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Abriu os olhos e tateou a parede atrás de sua cabeça buscando reconhecimento. Levantou e acendeu a luz. Estava em seu apartamento e tudo estava exatamente como há um mês atrás. No mesmo lugar, na mesma posição. Tudo aquilo realmente aconteceu? E se foi apenas um sonho? Devaneios de desejos não realizados e anseios imaginários? Quem pode testemunhar que certas vivências são/foram reais senão a própria memória?
Abriu o armário e viu a caixa com os desenhos e os cartões postais dela. Suspirando reconfortado, apagou a luz e voltou a dormir.
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Na farta mesa do café da manhã daquele hotel, ficaram se olhando, falando sobre música. Sabendo que seu ônibus partiria em apenas uma hora, propôs que cada um fizesse um desenho que representasse aquele par de dias tão intensos. Desenhou tudo o que haviam vivido até então: o passeio matinal pela cidade vizinha e deserta, a busca por um hotel na madrugada para passarem a noite juntos, o cochilo na grama e a gataria que encontraram no caminho do passeio, seguido de uma breve dedicatória e algumas doces palavras de despedida. "To the man with friendly eyes. I won't forget you" dizia no verso do cartão dela. Não parecia uma despedida, talvez por estarem ainda extasiados pela noite anterior, ou talvez porque sentiam, no fundo, que aquilo não terminaria ali, mas era apenas uma introdução de uma insólita experiência que marcaria suas vidas para sempre.
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“I like you”, ela disse, e lhe deu um terno beijo, durante o segundo encontro naquele festival, enquanto todos os amigos dela continuavam atentos assistindo ao show. “You wanna be...high for this” - cantava o vocalista no refrão, quase prenunciando sua sensação de entorpecimento daquele momento.
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“I miss you” - terminava o fim de cada email, que fazia sempre seus olhos encherem de lágrimas. Palavras banais em essência, mas que de alguma forma continham o peso da memória indizível, promessa de um porvir improvável.
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Despertou do cochilo naquela grama com um espasmo súbito, olhou para o lado e ela ainda cochilava sobre seu braço. O sol continuava escaldante acima deles, raiando por entre as nuvens. Apertou-a com mais força em seu peito e tentou registrar o momento com algumas fotos: seus pés naquela grama, a serenidade de seus rostos; Os pássaros e os gatos que os cercavam. Aquela tarde parecia que jamais escureceria.
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"most people would say it's naive to call this 'love'.... but I really think that's what it is". Sussurrou no ouvido dela, que já parecia semi-adormecida. Ela entreabriu os olhos, abraçou-o com força, somando um leve cafuné que foi esvaecendo à medida que o sono a tomava por completo. Não podia saber se ela realmente ouviu o que dissera, mas sentiu-se feliz por tê-lo dito. Ele ainda continuou acordado, em parte por sentir-se extasiado e atônito pela vastidão de sentimentos há tanto tempo esquecidos e também pela inevitável melancolia da perspectiva de que tudo isso, mais uma vez, em breve apenas escorreria pelas suas mãos.
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“little escape”, era como chamavam nos emails. O que começou como uma sugestão de um despretensioso desejo de um reencontro foi tomando forma concreta. Mudança de planos e cidades no meio do caminho foram se tornando uma realidade possível. Nada faria mais sentido do que revê-la enquanto estivesse no continente. Ela sugeriu a mais improvável e surpreendente das "pequenas escapadas": acampar numa pequena cidade, de nome quase impronunciável, situada no meio do caminho entre onde ela morava e a última parada dele. Iria de carro e o encontraria na estação de trem. No email antes de partir para o encontro, ela disse que estava empolgada com a aventura desse "little escape", apesar de ser, inevitavelmente, um pouco assustador. Ele respondeu, ja prevendo o que enfrentaria:
“my only fear is that I’ll miss you even more after this”
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A atmosfera era onírica, com o silêncio total ao redor deles e as lágrimas dela, douradas por aquela difusa e bonita luz matinal. Um beijo demorado, uma carícia, palavras hesitantes e um abraço terno e dolorido, tentando, fracassadamente, perpetuar o momento. Se na primeira despedida a euforia pairava, celebrando o fortuito, agora a melancolia dominava, lamentando a impossibilidade.
“Don’t say goodbye. I know we’ll meet again”, ele disse. “ok then...see you later”, ela concordou. “See you later", ele respondeu. Enxugando as lágrimas, soltou a mão dela, pegou a mala e se virou sem olhar para trás. Ela ainda correu e o puxou de volta para mais um abraço, como nos clichês dos filmes românticos, e assim ficaram por mais alguns segundos, sem dizer uma palavra. Despediram-se novamente, desta vez a última, e acenou de longe enquanto ela partia em seu carro. Sentou-se no banco da estação esperando a hora do trem, olhando fixamente para os ininterruptos ponteiros do relógio na parede que, naquele momento, pareciam a única coisa que ainda se moviam no mundo.
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Conferiu o relógio, a hora da partida do trem se aproximava. Clicou em “responder” e, ansioso, escreveu brevemente: “Ok, have a nice and safe trip! Only thinking of you now. Nothing else :)”, guardou o celular no bolso, juntou as bagagens e se dirigiu ao enorme portão com “Arlanda C” escrito. Atravessou-o, e enquanto descia as escadas em direção à estação, sentiu um leve temor e apreensão, um misto de calor e calafrio atravessou rapidamente seu corpo. Era como se tivesse acabado de atravessar um portal rumo ao desconhecido, já prevendo que, a partir dali, ele não seria mais o mesmo.
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Estava atrasado para o show que queria ver. Não se importou tanto, já que ainda era cedo e o festival ocuparia suas próximas 6 ou 7 horas. De relance, notou uma menina loira, de cachecol, blusa de lã e tênis amarelos que chegou na estação e se posicionara na porta ao lado da sua. Entraram no mesmo vagão do metrô. Ela se sentou de costas. Algo no olhar dela o conquistou. Enquanto todos pareciam excitados, eufóricos e barulhentos, ela exalava uma serenidade fascinante, apenas contemplando a paisagem pela janela.
Quando chegaram na estação de destino, ela se levantou e o notou - ou notou que a encarava, não tinha como ter certeza. Sentiu-se constrangido, ao mesmo tempo em que inevitavelmente percebeu uma faísca daquele fulminante contato visual.
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Visitava os lugares turísicos de sua penúltima cidade, maravilhado com as exóticas paisagens ao mesmo tempo em que não conseguia deixar de pensar nela e no "little escape" que estavam planejando para apenas alguns dias depois. Ao lado de um rio, viu uma placa que contava a história do lugar e uma lenda perfeitamente análoga ao que estaria prestes a fazer. O destino sempre parecia jogar em ciclos irônicos. Bateu uma foto daquele letreiro. "Ástarsaga" era o título - "love story" no texto traduzido ao lado. Era coincidência demais para que deixasse passar. Tirou uma foto. Sabia que poderia render alguma ideia, mesmo ainda não fazendo ideia exatamente o quê.
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E tudo começou com um “I wish a had a crazy plan to see you again while I’m still on Europe”, no final de um dos primeiros emails que enviou a ela. Surpreendeu-se quando a resposta dela veio: “you know what...let me know your dates, and we’ll see what this crazy plan can do.”
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Ficaram circulando de carro, procurando um lugar para acampar, sem sucesso. Até acharem um vão em meio as árvores ao lado de um lago. Um cenário bucólico e apaixonante, que parecia feito para eles. Trocaram olhares satisfeitos. "Perfect", ela disse. Desceram do carro e se prepararam para montar a barraca que ficariam nos próximos dias. Isolados de tudo e de todos, onde ninguém mais poderia encontrá-los, eles se bastariam.
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Após mais um sexo - que já haviam perdido as contas (na verdade já haviam desistido de qualquer senso de contagem. Nem o relógio olhavam mais) - ficaram abraçados nus conversando sobre tudo. Entregou-lhe pessoalmente um cartão postal que escrevera ainda na segunda cidade, antes da possibilidade de um "little escape" e quando pensava que mandaria apenas quando estivesse de volta em seu país. Ela lhe deu um abraço e um beijo demorado, trocando carícias em silêncio por vários minutos. E naquele momento, sucumbiu. Pôs-se a chorar. Tentando consolá-lo, ela disse “I didn’t know you were that sad”. “I’m not. It’s just...too many complexes emotions at the same time”, respondeu. E ficaram abraçados em silêncio até adormecerem sob o céu que se recusava a anoitecer.
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Ao sair do metrô, procurou novamente a menina dos tênis amarelos e notou que ela estava perdida, sem saber para onde ir. Perguntou se estava indo para o festival, ela acenou que sim, e, apresentando-se, chamou-a para acompanhá-lo. No caminho até lá, conversaram sobre a diferença de seus países, tão distantes entre si, dos lugares que ele visitaria e que ela já conhecia e, surpreendentemente, sentiu uma conexão avassaladora e desconcertante. Ao notar que suas filas de entrada no festival eram diferentes, despediu-se e disse “see you around”. Ela respondeu com um “bye” carregado de decepção. Arrependeu-se logo em seguida. Porque não pediu para esperá-lo? ”Estúpido! estúpido!”, martirizava-se. De longe, notou que ela o procurou com o olhar. Crucificou-se eternamente naquele dia. Sentia que vacilou diante uma grande oportunidade. Era das mulheres mais bonitas q já vira na vida. Respirou fundo e apenas aceitou a improbabilidade de um reencontro em meio a uma multidão de mais de 30 mil pessoas. O destino não seria tão generoso.
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Sentados na estação enquanto esperavam o horário de partida do trem dele, ela apoiou a cabeça em seu ombro e, com lágrimas nos olhos, disse “I can’t believe this is happening...” e ele respondeu “the important is that it happened”, num acesso racional de sensatez, mesmo que, no fundo, estava tão emocionalmente abalado quanto ela, com um nó na garganta e sentindo o peso cada vez maior daqueles segundos que se dissolviam ao seu redor.
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O último cartão postal datava de meses atrás. E os emails, cada vez mais escassos, não contém mais o então frequente “I miss you” ao final. O tempo está passando - ou passou, não consegue dizer. A rotina engole as emoções efervescentes, apaziguam a inquietude da alma, normalizam qualquer inconstância. Já não lembra a última vez que mandou um postal para ela. Já não sabe o que escreveria, ou o que sentiria ao escrever. As memórias aos poucos esvaecem em detalhes, de forma que nenhuma música e nenhuma escrita pode fazer permanecer. O que sentiu por ela e por aqueles momentos agora se misturavam ao que sentira por outras pessoas, em outros lugares, outras épocas, outras vivências.
A vontade da perpetuação seria então uma grande ilusão humana? Se tudo está fadado a um fim e ao esquecimento, o que nos resta para que uma vivência perdure? Qual e como será, portanto, o fim ideal? Tal coisa é realmente possível?
Quando tudo parece efêmero, perecível e condenado ao passado, só nos restam os dias que virão.
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"E se ela não aparecer"? Pensou assim que chegou, deitando em um dos bancos daquela silenciosa estação de trem, completamente vazia. Trocaram telefones mas não viu nenhum telefone público por perto (seu celular estava fora de roaming). Era inevitável pensar nisso após a viagem de 4 horas de trem para chegar ali. De qualquer forma, a confiança era maior que o temor. No fundo sabia que daria tudo certo. Enquanto esperava, pensava apenas em toda a “fuga” que planejaram, atenciosamente, nas últimas semanas, apenas por emails. A idéia, o plano, a mudança de rota, a compra dos tickets... Era algo especial demais para dar errado. O silêncio quase fúnebre da estação, agora se aproximando da noite - mas sempre branca - causaria apreensão em qualquer um. Mas não nele. No seu âmago, estava repleto de certeza. Apenas sorria, sabia que esta aventura improvável, inesperada e desconhecida o levaria a lugares inimagináveis, a vivências intensas e transformadoras. Tudo parecia palatável, à flor da pele, sentia que podia quase tocar aquele momento.
Estava quase adormecendo quando ouviu o som de um carro estacionando.
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A luz do dia que jamais se apagava deixava a tenda numa cor alaranjada, como se milhares de velas estivessem acesas do lado de fora. Abriu uma fresta para enxergar o céu. Maravilhado, chamou a atenção dela... ela respondeu com o mesmo espanto e reverência. Entreolharam-se boquiabertos e chamou-a para sair da barraca. Não fazia ideia que horas da madrugada eram e o vento estava frio e cortante, mas não se importou. Saiu com as poucas roupas que tinha no corpo e correu para a beira do lago, imediatamente paralisado com a visão mais bonita de sua vida. Aquele horizonte rosa-laranja refletido na água trazia uma atmosfera ainda mais onírica para uma vivência que já era onírica por si só. Insistiu em tirar várias fotos para tentar registrar aquele momento além da memória, mas em vão. As fotos ficavam sempre mais insossas do que o que via. Ela veio logo atrás para se juntar a ele e se entreolharam de novo, como que confirmando se o outro estava vendo o mesmo. Sim, estavam. E talvez, de fato, aquela madrugada apresentava-se daquele jeito apenas para eles. Um momento sublime de uma vida inteira, um minuto de uma eternidade. Plenitude, apenas. Por um momento, até mesmo esqueceram do vindouro e inevitável adeus que enfrentariam na manhã que surgia. Tudo o que importava era que, naquele exato momento e naquele exato lugar, o tempo autenticava o sentido das suas existências. Se aquela experiência possuía um fim ideal, estava diante deles. Como uma canção representada em imagens; uma escrita em trechos; uma lenda contada numa placa turística; uma vivência a ser lembrada; uma história a ser contada.
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maio-junho, 2012